Eu

É como se eu estivesse enfiando minhas mãos na boca do estômago, rasgando minha carne e puxando minhas costelas com toda força que tenho. É como se eu quisesse me abrir inteiro. Como se quisesse colocar pra fora. Como se precisasse estar exposto. Como se quisesse que olhasses lá pra dentro e me visse de verdade.

Vem, olha. É feio. É belo. Sou eu.

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Esperança

Esperei por ti. Por toda noite. Por todo dia. Esperei porque disse que virias. Esperei mais do que queria. Esperei até a alma ficar fria. Esperei teus olhos. Esperei tua boca. Esperei teus seios. Esperei por tuas coxas. Te esperei de forma louca, insana, imaginando coisas profanas que faríamos na cama enquanto meu nome tu chamas. Esperei de um jeito ardente sonhando coisas indecentes que faríamos livremente da maneira que fazem os amantes. Esperei tua pele, esperei sua voz, esperei tu me contares o porquê da demora, o motivo do atraso que já faz mais de hora e a razão de teres ido embora sem a merecida despedida. Esperei por justificativas e em desespero pela falta de zelo, gritei teu nome e passei a maldizê-lo. Esperei que te ofendesses, e que me respondesse de imediato porque me deixastes um hiato, um vazio, um abismo no peito. Esperei até não ter mais jeito. Esperei até os bares fecharem e os cafés esfriarem e os homens voltarem para suas casas, cheirando a cachaça e tabaco. Esperei a luz se apagar.  Esperei até não mais poder te esperar. Esperei até sentir fome. Até morrer de sede. Até doer meus ossos.

 

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Não consegui. E não dá pra voltar atrás.

Hoje é aquele dia em que a ficha caiu.  O dia em que vi o presente, enxerguei o passado e previ o futuro que, infelizmente, não vai acontecer. Se houvesse um concurso mundial da pessoa mais idiota do planeta, eu ganharia esse título hoje. Levantaria o caneco com todos os méritos e louros, teria toda a desonraria que um idiota da minha estirpe merece.

Não dá nem pra pedir perdão, pra dizer que estou arrependido, que quero voltar atrás. Não tem mais volta, não tem mais jeito, não cabe mais recursos. Já foi. Já passou. Eu poderia te escrever mil palavras que nada adiantaria. Eu poderia andar de joelhos que nada adiantaria. Eu poderia, eu poderia… eu nada poderia. O que foi feito não dá pra ser desfeito. Mas, cara, na boa, não estou triste. Não é isso. Não é amargura. Nem inveja. Não sei o que é. Não é algo necessariamente ruim. Embora eu lhe deseje toda felicidade que possa caber em uma pessoa. Ou em duas. Mas acho que queria que fosse comigo. Acho que queria ter feito diferente, embora eu tenha tentado fazer diferente. Apenas não consegui.

 

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Meias

Por ser um romântico incorrígivel, acreditava que um par de meias que se perde na confusão da máquina de lavar, acaba se encontrando novamente na gaveta do armário.

E se encontram, de fato.

Mas depois de conhecerem outras peças, depois de se misturarem com outras cores, depois de terem sido batidas, torcidas, lavadas, como será o reencontro?

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Ilhado

Havia um homem que morava numa ilha. Uma ilha que ele mesmo criou. Vivia solitário, mas feliz com seu conforto e segurança. Tinha todas as coisas de que precisava. Não reclamava de nada. Sol quente, água fresca, comida farta, sombra pra se deitar. Não precisaria sair dela pra nada. Mas às vezes ele saía. Deixava seu porto seguro para se aventurar em águas revoltas que ele não conhecia muito bem.

Quando se lançava ao mar, o vento nunca estava a favor. O céu escurecia. Parecia que o mundo estava pra cair. Em cima de sua cabeça e abaixo de seus pés. Mesmo assim, tomado por um sentimento de bravura, enfrentava o desconhecido, que em sua imaginação era habitado por montros invencíveis. Sentia medo. Mas navegava por grandes tormentas. Mesmo sem saber muito onde chegaria.

O problema é que por mais que ele lutasse, ondas sempre o empurravam de volta a sua ilha. Até agora, as ondas sempre venceram.

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Longa jornada

Estive viajando por muitos dias e tive que me ausentar do blog por falta absoluta de tempo e de tecnologia para atualizá-lo. Por onde andei não pegava internet e às vezes nem celular.
Pra terem um ideia, na sexta-passada, para chegar em casa, eu tive que pegar um táxi até um porto, pegar uma lancha e navegar pelos rios Amazonas e Tapajós por quase 4h, depois subir numa picape e ir até o aeroporto para então embarcar num boing e voar por 65 min para depois pegar uma van e finalmente um carro de passeio que me deixou na esquina de casa. De Monte Alegre a Belém foram 10h de viagem.

Não. Foi muito mais que isso.

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Me permito te escrever

É um desafio te escrever e dizer o que sinto,  o que quero dizer de uma maneira que não vá te assustar. Sei que um passo errado pode me fazer voltar dez casas. E dez casas, nesse momento, me faria voltar para antes do início da partida. E, mesmo sabendo que posso estar dando um tiro no pé, vou me arriscar.  Porque se você é tão parecida comigo quanto eu julgo que é, vai me entender.

Porque eu faço o que quero. Da mesma maneira que você também faz.  Sem ligar muito para opiniões, resultados, consequências. Não que elas não importem, mas fazer o que se quer é se libertar. E não há nada mais gostoso na vida que ser livre. Acho que somos livres pra algumas coisas. E estamos presos a outras. Contudo cheguei a um impasse. Me encontro diante da dúvida. Explico. Explicarei o que puder explicar. Você entenda o que puder entender.

Por amar a liberdade, tenho me mantido fiel a ela por uns bons anos. Acho que insegurança e relacionamentos fracassados me conduziram a um lugar onde estar sozinho é plenitude. E por muito tempo não titubiei em olhar para os olados, não ver ninguém e me regorgizar por ser completamente livre. Mas algo tem mudado. Comecei a questionar se tenho liberdade total para estar sozinho ou se não estaria aprisionado ao medo de me permitir gostar de alguém.

Tenho todo os motivos do mundo para gostar de você. E a mesma quantidade deles para me afastar. Porque, se você é tão parecida comigo quanto eu acho que é, tem a cabeça mais perturbada do mundo. E um coração que, não sabendo se vai pra esquerda ou segue para a direita, recua.

Mas tenho um motivo especial que me faz seguir em frente. É que eu acho que você vale a pena. Simples. Mesmo sabendo de todos seus defeitos. Mesmo sabendo que dar soco em ponta de faca por machucar. Mas considero o risco calculado. Eu sempre sei por onde ando. Mesmo sabendo que esse caminho é cheio de armadilhas, quero seguir adiante. E com isso não estou falando em relacionamento. Por enquanto estou no campo do me permitir te descobrir. E gostar do que tiver que gostar. E detestar o que tiver que destestar. Para mais uma vez decidir se devo continuar. Ou se devo recuar. Mas aí já é outra história…

Por enquanto me permito escrever pra você.

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