Depois da página doze

Não era seu aniversário. Nem natal. Nem amigo oculto. Ou qualquer outra data especial que merecesse presentes. Por isso ela estranhou quando, à sua porta, lhe chegou aquele romance. Desconfiou. Não sabia de onde vinha, nem quem o havia enviado.  Só tinha a certeza de que viera de muito longe, pois ele estava um pouco amassado, algumas páginas faziam orelhas e a capa, suja, embora lhe agradasse um pouco. Relutou em pegá-lo, mas o acabou tomando em seus braços. Resolvera que o leria. Nem que fosse por pura curiosidade.  

Muito receosa, pôs-se a ler bem devagarinho. Segurava o romance em suas mãos com todo o cuidado, pois sua aparência frágil dava a impressão de que ele poderia desmontar a qualquer momento. Ela nem sempre fora tão cuidadosa na leitura. Houve uma época em que ela lia mais depressa, por vezes saltava páginas e chegava logo ao final. Mas isso a deixava confusa… muitas vezes não conseguia entender o final dos livros.  Decidiu, desde então, que leria página por página. Linha por linha. Só assim não perderia nenhum detalhe da história e não se confundiria ao término de qualquer romance, tivesse ele um final feliz ou não.  

Era essa uma técnica muito boa. Funcionava quase sempre. O único problema é que ela se detina demais nas primeiras páginas dos livros e não fez diferente com o nosso e misterioso romance que estava diante de si. Embora a história lhe parecesse interessante, arrastava a leitura de uma única página por dias! Lia, relia, fazia anotações, procurava significado em outros livros. Esmiuçava cada palavra, como se defendesse de uma armadilha ortográfica no fonema seguinte. Tateava os significados e assim continuava a ler.

Meses se passaram e ela seguia zelosa em sua leitura.  O romance ainda lhe parecia interessante, mas a morosidade de sua leitura a atrapalhava no desenrolar da história. Essa era a contra-indicação da sua técnica.  Lia tão devagar que ainda não havia chegado à página doze. Aliás, a página doze lhe era crítica. Às vezes demorava tanto a chegar nela que a história perdia o viço e ela abandonava o romance no meio do caminho. Esse parecia seguir para o mesmo destino: pousaria empoeirado em uma das suas prateleiras para sempre e ela nunca saberia o seu final. 

Mas esse romance era especial, embora ela ainda não soubesse. Nunca se dera ao trabalho de folheá-lo até o final. Tinha medo de não se conter e pular capítulos. Por isso seguia página por página, sem saber que não havia nada escrito nas folhas seguintes. Esse romance era escrito por ela também. A página seguinte também era dela, por isso não precisa temer a de número doze. Seria escrita  a sua maneira. 

Um dia ela descobriria que o fim do romance seria decidido por ela. Fosse ele feliz ou triste.

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em cara estranho

7 Respostas para “Depois da página doze

  1. Reka Papellotte!

    Sei lá, ao ler esse post, pude sentir o gosto doce do romance, o meio amargo da saudade e o azedo da distancia…Pude sentir o aroma da felicidade…Por fim pude ver todos os contornos de uma metafora, que se tornara clara diante de mim…

    hahahah…porque será?!

  2. Viviane

    Bons tempos aqueles em que os romances sempre terminavam com um “e eles foram felizes para sempre”. E apesar do romance chegar à ultima página, não significava que a história tinha acabado para os personagens. (Eita, viagem! rs)

  3. Romances… página doze… gostei!
    Vou fuxicar o resto do blog 😉

  4. Carolina Damico

    Sensacional

  5. ignácio

    cara!… sem palavras, de fato.

    eXpetacular

  6. Sheilão

    Tigrão, calou fundo no meu coraçãozinho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s