Arroz da mamãe

Aprendemos muito com os nossos pais. São nossa primeira referência na vida. Nosso primeiro exemplo. O primeiro passo de um caminho a ser seguido. Isso não quer dizer que vamos escolher o trajeto escolhido por eles, mas, sem dúvida, as primeiras quadras são a que eles nos indicam.

Eu, um cara estranho apegado à família, aprendi muita coisa com meus entes queridos. Inclusive a ser diferente deles. Sigo meu próprio caminho. Embora ainda procure as placas de mãe e pai me orientando quando chego a uma encruzilhada. E assim continuo caminhando.

De todas as coisas que minha mãe me ensinou, a que mais me encanta é o arroz. Sim, mamãe me ensinou a fazer arroz. E essa é a grande lição que ela me deu na vida e que eu guarderei para sempre. Vou explicar melhor.

O arroz de mamãe é o melhor do mundo. Ou era. Agora o meu é melhor. Mas o dela ocupa ali a segunda posição. Bem pertinho do meu. Se jurados avaliassem, poderia dar empate técnico, mas como sou eu o juiz, o meu arroz ganha. Mas vamos lá. Voltar à mamãe. Quando eu era criança nem gostava de comer na casa dos meus amigos. O arroz nunca era igual. Nunca me satisfazia. Preferia o de casa. E por outro lado, sentia muito orgulho quando alguém ia comer lá em casa e provava o arroz da minha mãe. Lembro que eu ficava olhando para meus amigos, esperando a reação deles à primeira garfada. E não tinha erro. Bastava colocar a primeira porção na boca para os elogios começaram. Eu me enchia de orgulho. =)

Na verdade os suspiros começavam antes mesmo da garfada. Já no abrir da panela o cheiro embriagava a todos na mesa. A fumacinha subindo e invadindo as narinas… hum… delícia total. Mamãe sempre pegava um garfo e soltava o arroz, ali mesmo, na panela, em cima da mesa. Era maravilhoso. Não foram poucos os dias em que eu ficava ao seu lado na cozinha, apenas observando como ela preparava o arroz. Era simples. Muito simples. Mas era perfeito.

Mamãe fazia assim:

Primeiro era lavava o arroz, bem lavadinho. Em água corrente. A medida era um copo daqueles de requeijão. Enquanto ela deixava secando, fervia a água. Usava sempre o dobro da medida de água para o arroz. Pois bem, mais dentes de alho amassados e só. Panela pequena. Óleo primeiro. Deixava esquentar. Jogava o alho. Quase dourava. Em seguida adicionava o arroz, já seco. E mexia.Refogava. Alguns minutinhos. Era o tempo certo da água ferver. Ela abaixa o fogo e derramava a água no arroz. Um garfo de sal para dar gosto. Fogo médio. Panela semi-tampada. Quando a água descia, fogo baixo e panela tampada. Secou? Desligava o fogo e deixava ali ainda. Terminando de cozinhar. Pronto. O melhor arroz do mundo. Melhor só até eu fazer o meu.

Um dia resolvi arriscar. Fui para o fogão copiar mamãe. Fiz tudo diretinho, da maneira que ela fez. As mesmas medidas e proporções. O mesmo tempo. A mesma panela. O mesmo arroz. E um gosto terrível no final. Encuquei com aquilo. Como pode? Fiz tudo igual e o resultado foi diferente. Não era tão branquiho, nem tão soltinho. Não exalava o mesmo aroma. E certamente não encantaria ninguém. Sou um cara estranho, mas persistente. Continuei tentando. E tentando. E tentando. Imitando mamãe. Imitando como ela fazia. Mas o arroz nunca saiu igual. Estive prestes a desistir e encarar a derrota quando resolvi fazer do meu próprio jeito.

Primeiro, eliminei a lavagem. Desnecessário lavar o arroz. Pra quê? Mas manti a mesma proporção de água e arroz. Alho eu coloco um pouco a mais, contudo não uso espremedor. Prefiro um pilão de madeira. O sal ainda vai no garfo. Panela semi-tampada, fogo médio. Água secou? Tampa tudo. E pronto. Ficou bom. Delícia. O melhor do mundo. Mudei pouco da receita inicial de mamãe, né? Pois é, descobri que o segredo dela era um temperinho a mais que ela colocava pra fazer o arroz. E que pouco importava os ingredientes, as medidas e o método em sim. Mamãe preparava o arroz com carinho. Colocava amor naquela panela. E era por isso que a sua comida era a melhor. Piegas? Pode ser, mas também é verdade.

O importante é colocar carinho em tudo que se faz. Se é para fazer, que faça com amor. Não, não quero escrever textos de auto-ajuda. Não é essa a intenção. O que eu quero dizer é que é que não importa o que você faça, mas o resultado só vai sair bom se você fizer com carinho. Com amor. Com prazer. Com orgulho. Com determinação.

E hoje, o meu arroz é o melhor do mundo. Não estou desdenhando de mamãe, mas é que eu prefiro do meu jeito. Já faço com carinho. Coloco meu sangue ali. No sentido figurado, claro. Mas eu coloco.

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2 Comentários

Arquivado em cara estranho

2 Respostas para “Arroz da mamãe

  1. akriirka

    O arroz da mãe e o colo dela, não há melhor mesmo!…Lamento, ainda não descobri a minha receita, vou inventando e me deixando guiar pelas dicas que fui vendo na cozinha da minha mãe! Um dia encontro a minha…aquela que vou querer mostrar aos meus filhos…

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