O Choro

Sim. Sou um cara estranho. Sempre fui estranho. Desde que me entendo por gente. E antes disso também, segundo relatos de minha amada mãe. Por falar nela, tenho complexo de Édipo. Primeira de minhas esquisitices. Quero casar com a minha mãe e matar o meu pai. Bem, se conhecerem os meus pais vão entender o por que. Talvez nem seja complexo de Édipo. E, sim, bom senso. Mas estou perdendo o foco da conversa. Estou aqui para descrever como sou estranho. Desde que me entendo por gente. Ou antes disso. Segundo… ih! Estou repetitivo? Estou repetitivo? Ihhhhhh… Enfim, deixe-me prosseguir. Nunca fui normal. E não me venha com aquela história que de perto ninguém é normal. Eu era estranho de longe também. Daquelas crianças que as outras mães comentam nos cantos, sabe? “Não sei não, mas o filho dela vai virar veado”. Ou ainda: “Coitada da Cósinha… O que ela fez para merecer um filho desses?”  Tenho pena da minha mãe. Não devia ser fácil aturar os cochichos sobre a prole que ela amava. Como todas as outras mães (sem duplo sentido, por favor), a minha também não enxergava meus defeitos. Defeitos não. Minhas estranhezas. Ser estranho nem sempre é um defeito. Às vezes, é até virtude. Bom, pelo menos vejo sim. Não que seja virtuoso. Como já disse, sou, antes de tudo, um estranho. Nas primaveras da vida chorava sem parar. E sem motivo algum. Abria o berreiro. E não era manha. Não era pirraça. Era choro que precisava sair. Como se algo estivesse preso, me corroendo por dentro, e que precisava ser expurgado. E quando era liberado me dava prazer, me acalmava a alma e os nervos. E por isso que chorava, para me sentir melhor, embora não houvesse razão para me sentir melhor, tampouco pior. E a lágrima me acompanha a vida inteira. Nunca parei de chorar. Choro com menos freqüência. Mas ainda choro. E a sensação de prazer imediato continua. Quase como um vício, que precisa ser consumido para parar de doer. Preciso das lágrimas para me acalmar. Para me colocar nos eixos. Para encontrar o centro. Por isso, mesmo quando estou em lugares públicos, sob olhares inquisitórios, não escondo minhas lágrimas. O bem estar é maior que minha vergonha. Essa é uma das muitas estranhezas. Conhecerão outras.

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1 comentário

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Uma resposta para “O Choro

  1. Regina

    Por muito tempo vivi como quem não tinha lágrimas, pouca coisa me emocionava, era crua, dura. Presa em meus sentimentos, como uma mola encolhida… não sabia chorar como vc…
    chorar por dor…chorar por amor… por nada…
    não sabia.
    Mas quando soube que tinha um ser dentro de mim, precisando que eu respirasse para ele viver…tudo desabou… olhava uma flor…chorava…olhava uma criança…chorava…olhava minha bariga…chorava…
    Virei uma chorona.
    Hoje já se passaram 13 anos… e ainda continuo a mesma chorona que descobriu que tinha uma vida dentro dela…e agradeço todos os dias por isso.

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