
Quando criança eu queria ser escoteiro. Era um tempo de inocência e da falta de noção, pois, se eu tivesse o mínimo senso, nunca iria querer me juntar com uma turma que veste um uniforme infantil com ares de militar e cor de árvore. Mas o escotismo pode nos ensinar muito mais que atravessar velinhas até o outro lado da rua (se eles ensinassem a atravessar mocinhas talvez eu reconsiderasse meu julgamento). O lema desses jovens caridosos é “sempre alerta”. E estar sempre alerta, meu caro amigo, pode determinar se você vai passar fome ou se fartará com um banquete inesperado.
Certa vez o pai de um amigo disse que saiu da missa direto pro motel com uma beata que conheceu entre Ave-Marias e Pai-nossos. Adolescente, não entendi como aquele fato poderia ter acontecido. Afinal, nada mais chato e sem clima de pegação que uma missa. Perdoem-me. Eu ainda cheirava a leite e não compreendia os mistérios desse mundo, mas como numa revelação, o “tio” desfez as dúvidas. É que num determinado momento do sacramento, os fiéis (se você tiver que pesquisar num dicionário o que é fiel ganha pontos) tinham que dar as mãos. “E ela segurou de um modo diferente na minha mão”, contou o mestre.
Anos mais tarde compreendi que para sobreviver no ambiente hostil e selvagem da solteirice é preciso estar atento a todos os movimentos. A todos os olhares. A todos os comentários. Até mesmo, a todo silêncio. Estar sempre alerta. Essa é a regra nº 2. Porque até mesmo a velinha que você vai ajudar a atravessar a rua pode ter uma filha de tirar o fôlego. Ou, no caso das moças, um rapaz que é um pão.
Tenho um amigo que já pegou mulher no metrô. De começar a dar ideia até a finalização, foram 4 estações. Isso, meus queridos, só é possível quando se está sempre alerta. Ou você acha que se o camarada estivesse desligado e pensando na morte da bezerra teria conseguido traçar o broto? Metrô é situação adversa! Fim de expediente, todo mundo cansado e doido pra chegar em casa. Aplausos para esse trabalhador da conquista.
Mas se acham que apenas os cuecas tem de estar atentos, estão enganados. A regra vale pras moças também. Tenho uma musa que passa o rodo em geral. Sapeca todo mundo. Isso porque ela está sempre alerta! Vejam bem, meus amigos, que, num desses carnavais da vida, a donzela ficou com o vendedor de salsichão no meio de um bloco. Tava na larica, correu para a barraquinha do ambulante e se encantou por seus produtos. O que estava a venda e o que ele apenas emprestava, de bom grado.
Claro que já dei meus moles e deixei a peteca cair. Todo mundo deixa. Mas aí, caríssimos, hei de lembrar que também temos nosso dia de caça. Pra sorte de toda humanidade há um número cada vez maior de solteiras que estão sempre alerta. Sinal do nosso tempo. Como quando havia sido demitido de um emprego e fui até o banco sacar meu fundo de garantia. Agência lotada, filas intermináveis, cheiro de burocracia no ar. Saí do olho da rua direto para a filial do inferno! Vamos dizer que eu estava pouco acessível neste dia. Após amargar quase 4h numa espera sem fim, fui contemplado por uma caixa muito bonita e simpática. Muito mais simpática do que deveria ser com seus clientes. Eu estava puto, deprimido, derrotado. Me sentia a pior pessoa do mundo. E isso não fez a menor diferença. Após um atendimento classe A, minha querida caixa me deu seu telefone e disse que qualquer dúvida poderia ligar pra ela, mesmo for a do horário de expediente. Liguei de noite com uma questão insóluvel: na minha casa ou na sua?
Pra você que vive papando mosca, lembre-se de estar sempre alerta para variar o seu cardápio. Quem gosta de inseto é sapo. Podemos não ser príncipes, mas podemos nos alimentar como tais. Então, em qualquer hora, em qualquer lugar, com qualquer companhia, não fique disperso, pois a pessoa que poderia te usar pode estar bem aí do seu lado. Seja na sala de aula, no velório da tia-avó, na fila do banco, na poltrona do avião, no curso de idiomas ….